sexta-feira, dezembro 03, 2010

Ser mestre de si próprio


No passado fim de semana fizemos um retiro de meditação sem mestre. O mini-retiro começou na sexta à noite e terminou no domingo ao fim da manhã.

Cinco pessoas e um programa impresso numa folha, que consistia essencialmente em alternar meia hora de meditação sentada com meia hora de meditação a andar. Tivemos também duas sessões de yoga. A meditação no sábado foi intensiva, das 7:30 da manhã às 10h00 da noite.

Também lemos um texto sobre o Kalama Sutta, onde o Buda refere a importância de não aceitarmos algo, mesmo que seja ele próprio a dizer, sem validarmos com a nossa própria experiência. O texto chamava a atenção para a importância do "inquérito", do questionamento, da observação.

Até voltei a ler um pouco de Krishnamurti. Acho que uma pitada faz bem a toda a gente. Um extracto do conhecido discurso da Dissolução da ordem da Estrela: "Eu sustento que a Verdade é uma terra sem caminhos e dela não podereis vos aproximar por nenhum caminho, por nenhuma religião, por nenhuma seita."

É forte a tendência que as pessoas têm para seguir alguém, em vez de procurarem ser uma luz para si próprias. Existem muitos seres inspiradores mas em última instância cada um tem que ser mestre de si próprio e tem que ter a coragem de não se sujeitar a nenhuma forma de autoridade. Ninguém nos pode dizer o que fazer. Temos que ser nós próprios... em silêncio.

terça-feira, novembro 23, 2010

Workshop com Swami Maitreyananda e Campeonato Europeu de Yoga Artístico


Foi em Lisboa, no fim-de-semana passado. Finalmente percebi o que é uma linhagem do yoga. Não são conhecimentos, não são técnicas que passam, mas sim uma arte: a arte de ser feliz. É isso que o Estevez Griego passa as pessoas, com o seu genial sentido de humor aliado ao vasto conhecimento sobre Yoga.

Eu não entendia porque motivo a prática do Yoga Artístico me faz tão feliz. Existem várias formas de Yoga Artístico. A forma que pratico consiste essencialmente em explorar a beleza das posturas do yoga criando coreografias fluidas que envolvem posturas de yoga e cuidadas transições entre posturas, com roupas coloridas e música. É a prática em si que funciona, nem importam os resultados. Quando exprimimos através da arte o melhor que existe dentro de nós, somos flores que desabrocham. Nem importa muito se fazemos posturas de yoga muito bem ou não. É mesmo apenas a atitude, a intenção com que o fazemos. Expressar o que existe de belo em nós, deixar a criança interior sair e brincar, apenas fazer, sem pensar porquê. Na verdade continuo sem entender bem como funciona o Yoga Artístico. Só sei que esta prática, aliada a uma acção pura e bem-intencionada, me tem movido da mente para o corpo, do que penso para o que sinto, do dukkha para o sukha. Não me lembro de viver tão feliz, durante tanto tempo, em toda a minha vida…

E entendo agora que não são palavras que passam. E sinto-me muito grato ao Estevez, quem criou o Yoga Artístico, uma pessoa extraordinária que tive o privilégio de conhecer melhor este fim-de-semana, que iniciou a Juliana Brod nesta arte, outra pessoa extraordinária, que foi quem me tocou com o Yoga Artístico, com quem pratico, quase diariamente.

Foi também o 12º Campeonato Europeu de Yoga Artístico este fim-de-semana. Foi um grande desafio para mim participar. Os nossos resultados foram muito bons. Várias medalhas de prata e ouro! A Juliana ficou em primeiro lugar no Yoga Artístico individual, como era de esperar. E somos os dois campeões europeus de Yoga Artístico em pares! Não havia muitos participantes, mas estou determinado a promover o Yoga Artístico Desportivo (a variante direccionada para a “competição espiritual”) para divulgar o Yoga Artístico. Acredito que, tal como eu, devem existir outras pessoas para quem esta prática encaixa perfeitamente. No próximo ano deve ser na Bulgária. Estou lá caído!

segunda-feira, agosto 02, 2010

Pedro Kupfer e Advaita Vedanta


Ontem fui à Casa Ganapati a um Sat Sanga.

Foi muito boa a sessão de kirtans mas o que me impressionou mesmo foi a conversa do Pedro Kupfer. Foi absolutamente brilhante. Até vi uma aura em torno dele no fim da conversa (e eu não acredito nestas coisas! :-) ).

Fiquei muito curioso em relação ao Advaita, de que não sei grande coisa. É umas das filosofias hindus, não dualista. A noção de Ishvara, do modo como o disse, que suponho seja a visão do Advaita, é uma noção de "Deus" que parece servir inclusive a ateus e budistas. Um principio único que existe em tudo, que inclui as leis naturais como a gravidade... Existirão diferenças essenciais entre advaita e budismo?

"Nós já somos plenos. Somos Ishvara. Somos plenos na alegria e na tristeza. Existe um abismo entre aquilo que somos e aquilo que pensamos que somos ou devíamos ser, devido aos condicionamentos ao longo da nossa vida."

Acho que "aquilo que somos" pode ver-se como atman ou como a natureza de buda.

Também fiquei curioso em relação à Ética de Espinosa que parece ter notáveis semelhanças com a filosofia Advaita. Tenho ouvido falar tanto de Espinosa mas nunca li um livro completo.

E agora... Andanças!!!



segunda-feira, maio 03, 2010

Palestra "Prática do Dharma"

Ontem dei uma palestra no espaço de Yoga, com este título, a mesma que preparei para o curso de Yoga Integral que estou a frequentar. Apareceu muita gente, apesar de não ter divulgado publicamente. Foi interessante e divertida a sessão de perguntas e conversa após a apresentação. O primeiro slide com o resumo:

Buda (O que descobriu)

O problema da palavra “Budismo” (Kalama Sutta)

Budismo (Quatro Nobres Verdades e Caminho do Meio)

Meditação (Os Dois Pilares)

Budismo e ciência (Em sintonia)

Prática Budista não Budista (O essencial)

quarta-feira, abril 28, 2010

Sofrimento outra vez


Nesta vida existe sofrimento, todos os dias, em cada instante! Alguns dias mais que outros. E isto é absolutamente normal.

Desde que ouvi falar do Buda que entendi que não quero caminhos de felicidades. É tão cansativo fingir que o sofrimento não existe. Vejo tantas estratégias de tanta gente, mais ou menos refinadas para tentarem manter-se na crista da onda, sempre em frenética actividade e em grande esforço. Vão morrer a correr ou parar um dia? As ondas sobem e descem!

Por falar em ondas, hoje já está bastante calor, é altura de voltar ao bodyboard...

segunda-feira, abril 26, 2010

Dhukka


De tempos a tempos volto à primeira nobre verdade: dhukka.

Existe sofrimento na existência humana. Estamos sujeitos à dor, envelhecimento, doenças e morte. E podemos tentar ignorar isto com distracções ou procurar viver a vida em pleno, também o sofrimento.

Raramente olho para a televisão, mas ontem à noite olhei para um daqueles programas que mostram como a vida das vedetas de televisão é plena de felicidade. Ficando a olhar para a televisão esquecemos facilmente que a nossa própria existência tem sofrimento. Talvez a solução seja ficar sempre a olhar para a televisão, fugir à vida e um dia morrer sem ter vivido...

Do mesmo modo que nos podemos abrir à dor física e notar cada sensação até que fique apenas a dor deve ser possível notar no corpo o sofrimento mental até que fique só o sofrimento mental. O que quer isto dizer?



terça-feira, abril 13, 2010

Onde está o bebé? Cá está ele!


Às vezes o bebé chora profundamente e grita... em silêncio. E não sabemos o que quer, o que tem, que mal o aflige...


segunda-feira, março 22, 2010

Retiro Zen com a Amy Hollowell

Saí hoje do meu primeiro retiro numa tradição Zen, com a Sensei Amy Hollowell.

Fantástica experiência. No inicio davam-me vontade de rir aqueles gestos e rituais Japoneses todos. Depois comecei a tentar imitar. Ontem à noite já fiz todas as vénias ao Buda a sentir o que estava a fazer. O que senti foi "raios, o que ele fez é mesmo difícil" num misto de humor e respeito.

É paradoxal. O que ele fez foi "não fazer nada". Apenas observar. Ver, claramente, tudo o que há para ver, sem interferir, sem rejeitar nada. Parece tão fácil...

A palestra de ontem foi absolutamente genial. Foi uma palestra sobre Despertar. Parece ter dito tudo o que há dizer. Simplesmente criou o contexto ideal para a história com apenas duas palavras:
-Ananda.
-Yes.

A entoação do "yes" não consigo descrever aqui, mas tocou-me. Como se estivesse tudo ali, naquela resposta simples, directa, de Ananda.

sábado, março 06, 2010

Meditação


Relaxar, observar, não reagir. É possível observar mesmo o que está a acontecer neste instante? No instante em que realmente acontece antes de começarmos a adicionar explicações e conceitos e todo o tipo de teorias budistas ou não budistas?

Para mim agora meditar é apenas isto. Uma observação relaxada do que está realmente a acontecer, sem adicionar nada.

Postura correcta, relaxamento e observação. O único controle que procuro que exista é o de fazer voltar a atenção ou apenas para a respiração ou para tudo aquilo que está a acontecer, no momento presente, interna e externamente.

Faço isto todos os dias, pelo menos trinta minutos por dia, porque faz sentido. E não espero nada em troca...